DE VOLTA AOS BONS TEMPOS DO MSX


Foto de um Expert da Gradiente e um Hotbit da Sharp



Por: Renato Degiovani



 Em março  de  85  fui  levado até a  Gradiente  para conhecer
o projeto  do MSX.  Quase ninguém  tinha  ouvido falar naquele
micro, apesar de já ter lido  um artigo numa revista  inglesa, 
sobre  o  padrão. Mostraram-me um  MSX da  Philips (o Expert é 
idêntico) e exageraram tanto nas previsões e na  disposição de
dominar o mercado brasileiro que passei a desconfiar que  algo 
estava muito esquisito. Falavam muito, mas uma coisa me chamou
a atenção: diziam que  entendiam tudo  sobre construir  aquela
máquina, mas não entendiam nada de informática.

 Do  ponto  de  vista  mercadológio, admitiam  que  tinha sido
um erro comprar  os direitos de  fabricação do Atari, enquanto 
todo mundo pirateava o videogame. Sentiam-se meio bobos  nesta
estória e não queriam repetí-la com o MSX.

Logo depois soube que outro grande fabricante ia entrar também 
na  disputa  pelo  mercado  (a  Sharp). Reuni  o  pessoal  que 
produzia software na época  e saimos  em busca  de informações
técnicas, contactando quem conhecíamos no exterior.
 Em pouco tempo já tínhamos dois micros: um Hit Bit e um outro 
de origem alemã, com sistema Pal G. Tivemos que adaptar uma TV 
para fazê-lo funcionar.

Antes  do  lançamento  oficial  do  MSX  no  Brasil, na  feira
internacional de informática (no final de 85) ainda estive uma 
vez  com  os  fabricantes.  O  clima  era  péssimo  e  falavam 
inclusive  que o  projeto ia  ser posto  de lado.  Parece  que
existiam problemas relacionados com  a reserva de  mercado, na 
época. Também já sabíamos que haveria diferenças básicas entre 
os  dois  micros  nacionais, principalmente  no  que  era mais 
importante  para  o   mercado  nacional:  a  fonte  de  letras
acentuadas e o  teclado. Conseqüentemente a  língua portuguesa 
sairia prejudicada.

 Na verdade, nenhum deles podia fabricar computadores. A saída
foi fabricá-los em Manaus, como  se fossem  videogames. Assim,
driblavam a  lei da reserva  de mercado e  se beneficiavam dos
incentivos fiscais da zona franca. Para mim, esse  era o ponto 
que faltava para visualizar o que aconteceria  no mercado e, a 
historia  provou, eu  estava  certo. Iriam  lançar  máquinas à
rodo, inundando as lojas e sufocando a concorrência (na época, 
Microdigital com o TK 90x). Nisso eles eram muito bons.

Mas ,o que mais precisávamos na época eles não iriam fazer: um
microcomputador com uma atitude séria e profissional por parte
do seu fabricante. A maioria do pessoal que "nasceu" com o MSX 
não tem idéia do tinha sido o relacionamento dos  usuários com 
os   fabricantes  de  ZX 81,  TRS 80,  Apples  e  TRS   Color. 
Principalmente  com  aqueles  que viviam  ao abrigo  da lei da 
informática.

Os fabricantes nacionais de MSX  tinham que fazer  parecer que 
se  tratava  de  um  brinquedo  e   não  de  uma   máquina  de 
processamento  de  dados.  Isso  explica  porque  eles   nunca 
apoiaram  de  verdade  um  software  que   não  fosse um  jogo 
tipo  videogame. Só  fizeram  algo  próximo  a  isso  quando a
reserva de mercado já tinha sido relaxada.

Logo após o lançamento do MSX, resolvemos  (apesar de já estar 
claro que não iríamos ter  apoio nenhum dos  fabricantes)  que
ainda  assim  seria  interessante  lançar  produtos  para essa
linha. Eram micros coloridos,  com alta  resolução,  de  baixo
custo e com uma grande espectativa por parte do mercado.

Optei por fazer uma  versão do jogo Amazônia, que estava sendo 
lançado em grande estilo  (embalagem  especialmente  projetada 
por  nós,  anúncios   coloridos  em   todas  as   revistas  de 
informática, etc) para o MSX. Na página do anúncio apareceriam 
o nome  dos  micros que  teriam  versões do jogo. Estavam lá o
TRS 80, ZX 81, Hot Bit e o GPC 1.

Assustou? Bem, era  esse o nome  do Expert: Gradiente Personal 
Computer 1.  Um  dia  antes  da  revista  Micro  Sistemas  ser 
impressa (contendo o tal anúncio), o responsável  pelo projeto 
MSX da Gradiente me ligou e  pediu  que  alterasse  o  nome do
computador. 
Houve um sério  problema com  o pessoal da reserva de mercado,
pois ficava claro para eles que  se tratava  de um computador. 
E mais, com esse nome o MSX ficava parecido com o "PC".

Na ocasião eu era o Diretor Técnico da revista  Micro Sistemas
e  responsável  direto  pela  parte  gráfica  da  mesma.  Pelo
telefone, aproveitei a  oportunidade para  verificar  até onde 
estavam dispostos a ir nesta questão. Disse  que  a revista já 
estava na gráfica e provavelmente, naquela hora (eram  7 horas
da noite) ela já estaria sendo impressa.

Ouvi que, se este era o caso, eles teriam que adquirir  toda a
edição impressa da revista e  inutilizá-la,  pois  aquele nome 
não  poderia  ser usado. Isso  não foi preciso.  Imediatamente 
despachei  o  produtor  gráfico  com   a  missão de  fazer uma
alteração no fotolito do anúncio, na gráfica. Afinal, eu ainda 
não tinha recebido a prova heliográfica da revista e  portanto 
nada ainda havia sido impresso.

Quer comprovar o que digo? Se você tem a Micro Sistemas edição
número 48 (setembro de 85), na página 21 tem o  anúncio  a que
me refiro. Olhe com muita atenção no nome Expert e note como o 
preto  ao  redor  dele  é  diferente. Foi  feito  um corte  no 
fotolito do anúncio e remendado com novo nome (na época  ainda
não se dispunha das maravilhas da computação gráfica).

Pode verificar isso também na revista Micro & Vídeo, número 20
página 73 ou na  primeira  edição da  MSX  Micro, na  terceira 
capa. 

 Agora se prepare: eles próprios admitiam que o problema com a 
reserva de mercado nem era tão importante assim. No  final das 
contas, era onde pretendiam chegar mesmo, ou seja, iam  lançar 
o MSX para  ganhar o  mercado mas o  objetivo era se  preparar 
para o PC. O MSX era apenas a etapa inicial.

Tudo isso aconteceu no final de 85  e início  de 86. Só quando
os primeiros micros chegaram às lojas é que pudemos ter acesso 
aos MSX nacionais. Até  então, os fabricantes  faziam  o maior 
"segredo".

Lembro  perfeitamente  que a  única  coisa  que insistiamos em 
perguntar era o quanto eles iriam sair fora do padrão. Nem uma 
resposta  sequer  tivemos. A  Sharp,  por  exemplo, nunca quis 
divulgar que padrão pretendia adotar para os seus drives.
Diziam que era um  segredo de  mercado.  Acabaram  por cometer 
tantos equívocos que "mataram" o seu MSX antes do tempo.

Foi num cenário desses que tivemos de decidir o que fazer, que 
rumo seguir e principalmente o quanto apostar numa determinada
direção. Não foi fácil escolher um rumos às escuras.

Na época  eu  fazia  parte de um  grupo formado  basicamente a 
partir do pessoal do curso de criação de  jogos em computador, 
promovido pela JVA e produzido por  mim, do qual faziam  parte 
também gente como Claudio Costa, Divino C.R. Leitão, Júlio
Veloso, Sérgio Duric, Frederico Liporace e outros.

Tudo era muito nebuloso quanto ao futuro do MSX,  então adotei
os seguintes critérios: faria um sistema de teclado e alfabeto 
totalmente novo, para fugir dos problemas de incompatibilidade 
entre os nacionais e quem mais aparecesse. Usaria, como padrão 
de acesso a  disco, o  sistema da  Microsol baseado  em portas 
lógicas e não em endereços de memória.

Quanto aos slots de memória,  ambos MSX  nacionais operavam de 
forma idêntica e não ví necessidade de  me preocupar  com este 
ítem nos programas.

É preciso levar em consideração o seguinte: quando  fazemos um 
programa para uso próprio  podemos  literalmente  dar  asas  à 
imaginação. Mas, quando o programa se destina a um determinado 
mercado, a coisa muda um pouco de figura. Quando apareceram as 
Megarams, o MSX 2, o Turbo R, etc, já estava evidente que  não 
havia mais mercado  substancial no  Brasil  para os  programas 
destinados ao MSX.

Esta não é uma questão ideológica ou técnica, mas  tão somente
comercial. Nem sempre o mercado se comporta como  desejamos ou 
como seria de se esperar. Tudo depende de quantas  pessoas  se 
dispõem a seguir numa determinada direção.



RENATO DEGIOVANI foi Diretor Técnico e Editor Geral da revista
 Micro  Sistemas  por  mais  de  10  anos. Renato cuida  também
 TILT Online, É uma revista sobre informática  onde  você,  com 
 certeza, irá encontrar o mesmo "clima" daqueles bons tempos. 


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